Cotidianos perecíveis

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Sabe aqueles pequenos momentos de prazer ao escapar nem que momentaneamente da realidade e quebrar a monotonia?

É uma mentira. Esses momentos só servem para enaltecer o que não deveríamos ter, ouvir, sentir. Mas se segurarmos as mãos, você sentiria percepções diferentes. Acho que pra cada cotidiano é diferente. Vocês não entendem, apenas estou constatando fatos. Não se trata do que perceber, mas como.

Só estou tentando ser realista. O céu será seu algum dia? Ou quem sabe os oceanos; seriam eles capazes de compreender quem são seus donos?

Nunca, nada será seu; agora ou para sempre. Efêmero e temporal, essa é a natureza das coisas; do universo.

Como se os arautos do tempo tentassem nos convencer incessantemente de algo que eles não são, e sim apenas das coisas que eles se permitem ser. Considere-nos seres desprovidos de tempo e como nossas vidas devem parecer um simples flash para eles.

Entende agora, todas as coisas que desejamos e que nunca teremos? Nós tentamos superar o tempo e o melhor que fazemos é sermos escravos dele. Humanos são patéticos, como grãos de areia escapando pelos dedos pré-arranjados da esperança. Nada é devido ao ato, tampouco as mãos que sonham em manter a areia.

Ainda sim, através das lentes embaçadas do mecanismo chamado rotina, o invisível obsoleto de nossas vidas se manifesta, ninguém diria que sua visão sobre a vida estaria ofuscada, já que o ínfimo tempo de vida que temos, brilha e morre antes que possa ser entendido e todas as nossas preocupações externalizadas.

Sua existência após a morte ecoará em memórias e nem mesmo todos os remédios do mundo evitarão esse destino. Esse é o segredo que toda criança conhece mas todo adulto ignora. Toda a obra da sua vida um dia estará em um lugar que ninguém verá, em uma língua que ninguém conhecerá.

A única coisa que é nossa e que nunca se perderá, são nossos momentos; os sorrisos, os abraços, os toques. Toda a forma de amor. Desapegue-se do ego.

Ermitão Urbano Ermitão Urbano
Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.