O mito dos sonhos

post-thumb

Era só mais um repórter, cansado de se foder por aquilo que fazia de melhor; expor as verdades chocantes, os estigmas ignorados. Chorando, começava a sussurrar para a lâmpada que piscava quase em sincronia com a goteira dessa cela úmida. Só ela mesmo pra entender como a verdade se transformaria em mentira, enquanto o príncipe viveria sua fábula, sorrindo ao lado de mulheres-luxo e carros-luxo, se convencendo tranquilamente do impossível.

Todas as palavras caluniosas que o repórter usara para descrever uma simples noite selvagem, se tornariam suas algozes. Ricos não estupram, no máximo perdem leilões de corpos e pagam o valor mínimo da mercadoria, afinal, quem não se venderia?

Um repórter que só estava segundo as regras, era como tinha de ser, tudo que ele deveria fazer era expor a verdade e cumprir o seu dever, cá está mergulhado na escuridão de todos os sonhos que se foram.

O príncipe sorriu em sua carruagem.

Justiça foi feita?


Era só mais um apaixonado em núpcias, sozinho em um quarto de hotel, a espera de uma mulher. A sua amada, escolhida para ser sua mulher. Ele range os dentes ao telefone que não lhe dá resposta, perguntando-se o que ela estaria fazendo agora, ofegante e com um pulso que não diminui, ele bate as pernas no chão, puxa os próprios cabelos; joelhos vão ao chão. Lágrimas.

O pensamento, arauto desse mundo odioso havia anunciado sua sentença e o deixado desesperado. Agora é tarde demais, mais do que deveria ter sido; e apesar dos seus olhos doloridos quererem dormir, contra a toda a própria razão, contra tudo o que ele acredita, contra toda a dor… ele ora pela proteção dela.

O bobo da corte ora em seu mausoléu.

Justiça foi feita?


Era só mais uma mãe, nervosa e estressada que perseguia os próprios filhos que ela mal conhecia no mercado, tentando ir às compras com ordem. O pai, longe dali, se afunda em álcool em um bar qualquer enquanto cospe frangos ri sobre coisas vazias como futebol e bilhar. Costumava ser um conquistador, um rei.

Um homem que acordava sorrindo para o sol, agora sai do bar embebedado em seu egoísmo pela sua própria vida. Sozinho, mal consegue abrir a porta e ao fechá-la, o mais fulminante ataque cardíaco o visita. Em sua solidão, a visão do teto e a amargura a própria vida são seus únicos companheiros.

Um rei chora em seu castelo.

Justiça foi feita?


Há um mito que deveria ser feito, um que espalharíamos todos os dias. As dolorosas mortes provocadas por sonhos definhados e apodrecidos, a desistência daqueles que amamos. A alma que se esvai de seu plano.

Justiça foi feita?

Esse é o mito dos sonhos.

Fragmentos do Imaginário Fragmentos do Imaginário
Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.