Interlúdio III - A Casa

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Coleção: Revolução Anamórfica
🔄 Status: Em progresso

A escritura era válida.

As duas.

A primeira família chegou às 08:03. O contrato digital estava assinado; autenticado; confirmado. O sistema indicava transferência concluída durante a janela de igualdade.

Eles trouxeram malas pequenas; caixas improvisadas; uma planta enrolada em jornal.

Às 08:17, a segunda família chegou.

Mesmo endereço.
Mesmo contrato.
Mesma confirmação.

Ambos mostravam a tela do celular como prova absoluta.

A gente comprou ontem. Nós também.

A casa estava vazia. Porta destrancada; sistema de fechadura digital ainda sincronizando com servidores que não decidiam prioridade.

O pai da primeira família entrou.

O pai da segunda bloqueou a passagem.

A casa é nossa. Está pago. O nosso também.

As crianças observavam como se fosse brincadeira de território.

Às 08:41, vizinhos começaram a filmar.

Às 08:52, a discussão virou grito.

Não havia fraude.

Não havia invasão.

Havia duplicidade de direito.

A polícia chegou às 09:14.

O agente mais jovem pediu documentos.

Ambos apresentaram.

Ele conferiu no tablet da viatura.

Status confirmado.

Transferência concluída.

Validação pendente.

Quem entrou primeiro? Isso não importa.

Importava.

Mas não resolvia.

O agente ligou para o superior.

Como procedemos em caso de dupla propriedade validada pelo sistema?

Silêncio do outro lado.

Aguarde instruções.

As famílias ficaram na calçada; malas no chão; dignidade suspensa.

A mãe da segunda família sussurrou:

A gente vendeu tudo para comprar aqui.

A primeira respondeu:

Nós também.

Às 10:02, alguém sugeriu dividir a casa.

Riram.

Não era piada.

Às 10:19, um empurrão aconteceu.

Às 10:21, uma criança começou a chorar.

O policial percebeu que não estava mantendo ordem; estava administrando ausência de referência.

Sem hierarquia clara; sem critério legal; sem tempo de sistema; sem prioridade reconhecida.

Às 11:07, o superior retornou.

Nenhuma das partes pode ocupar até validação definitiva. E onde eles ficam? Não é nossa atribuição.

A casa ficou vazia novamente.

Duas famílias foram embora com contratos válidos.

E nenhuma chave.

Naquela manhã, propriedade deixou de ser posse.

Virou disputa de interpretação.

E interpretação não abriga ninguém.

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Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.