ATO VIII - Entropia

post-thumb
Coleção: Revolução Anamórfica
🔄 Status: Em progresso

Nada explodiu.

Nenhum mercado caiu naquele minuto.

Nenhuma sirene tocou.

Houve atualização.

Silenciosa.

Alice observou os primeiros sinais surgirem na rede; inconsistências de validade; revalidações compulsórias; notificações que pareciam administrativas demais para assustar.

Era isso que tornava tudo mais perigoso.

Não era colapso.

Era revisão.

Ela fechou o notebook com a mesma serenidade com que abrira.

Não havia euforia.

Havia responsabilidade.

Do outro lado do país; um homem acordou antes do sol como fazia desde os dezesseis anos.

O café tinha o mesmo gosto.

O céu tinha a mesma cor.

A terra estava no mesmo lugar.

Ele caminhou até a cerca que delimitava a parte mais produtiva da plantação; a parte herdada do pai; a parte onde ensinara a filha a dirigir o trator.

No celular; a notificação já não era alerta.

Era confirmação.

Trinta por cento da área entrara em regime coletivo provisório até validação comunitária.

Provisório.

Ele releu a palavra como se pudesse desgastá-la.

Não havia confisco.

Não havia polícia.

Não havia violência.

Havia linha nova no mapa.

Ele atravessou a plantação lentamente; medindo a distância entre o que sempre fora dele e o que agora precisava ser aprovado.

No limite exato; fincou o pé.

O solo não mudara.

Mas o direito sim.

A filha apareceu atrás dele.

Pai.

Ele não respondeu imediatamente.

A gente ainda vai plantar ali?

Ele olhou para o campo; para a extensão que agora exigia permissão.

Não por enquanto.

Ela não chorou.

Ele também não.

Ele apenas retirou da cerca a placa de madeira com o sobrenome da família; aquela que o avô havia pregado décadas antes.

A madeira estava gasta; mas inteira.

Ele passou a mão pelo nome; como se tocasse algo vivo.

Depois guardou a placa no porta malas da caminhonete.

A terra continuava ali.

O ciclo também.

Mas a permanência havia terminado.

Naquela manhã; o mundo não estava em guerra.

Não estava em colapso.

Estava aprendendo a viver sem eternidade.

E alguns aprenderiam pagando.

Alice, em outro ponto do país, não viu aquele campo.

Mas o efeito de sua decisão já caminhava sobre ele.

Entropia não destrói.

Limita.

E limite é sempre sentido por alguém.

A temporada termina não com sistema.

Termina com cerca.

E uma linha que não estava ali antes.

Revolução Anamórfica Revolução Anamórfica
Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.