Interlúdio IV - O Enki que Hesitou

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Coleção: Revolução Anamórfica
🔄 Status: Em progresso

Ele não dormia desde a ativação.

Não por euforia.

Por ruído.

As telas estavam desligadas; mas as notificações continuavam vibrando na memória. Hospitais em pane; mercados em disputa; governos em reunião de emergência. Ele sabia que tecnicamente o código havia funcionado. Precisão matemática; execução limpa; sem corrupção interna.

Mas precisão não mede consequência.

Ele abriu novamente o painel oculto onde acompanhavam divergências sistêmicas. Não procurava falha; procurava dano.

Uma aba mostrava interrupções logísticas.
Outra mostrava picos anormais de acesso a serviços essenciais.
Outra mostrava algo que ele não esperava; aumento súbito de chamadas de emergência em determinadas regiões.

Ele fechou a aba.

Abriu de novo.

Não era erro estatístico.

Digitou no canal interno do grupo.

Alguém está monitorando impacto humano direto?

A resposta veio minutos depois.

O objetivo era estrutural.

Ele insistiu.

Estruturas são compostas por pessoas.

Silêncio.

Outro membro escreveu.

A transição sempre gera atrito.

Atrito não é o mesmo que morte.

Ele hesitou antes de enviar a próxima mensagem.

Talvez tenhamos subestimado a velocidade do colapso periférico.

A resposta do avô veio curta.

Já fomos até onde precisávamos.

Ele leu três vezes.

Precisávamos.

Quem é nós.

Ele fechou o notebook.

Na sala ao lado; a televisão transmitia imagens do hospital que ele reconheceu pelo código regional. Não conhecia ninguém ali. Não precisava.

A filha entrou no quarto; segurando o celular.

Pai; você viu isso?

Ele respondeu sem olhar.

Vi.

Ela mostrou a tela.

Dizem que foi ataque coordenado.

Ele permaneceu em silêncio.

Foi?

Ele olhou para ela pela primeira vez desde o início da semana.

Não havia orgulho ali.

Nem convicção.

Havia cálculo tentando se transformar em justificativa.

Às vezes; sistemas precisam ser testados.

Ela não parecia convencida.

E as pessoas?

Ele não respondeu.

Porque a pergunta não era técnica.

Era moral.

Naquela noite; ele abriu o repositório novamente.

Procurou pela segunda rotina.

Leu o nome.

ouroboros_entropy

Ele não sabia se aquilo era correção.

Ou escalada.

Fechou sem alterar nada.

Pela primeira vez; duvidou não da teoria.

Mas do tempo.

E tempo; diferente de código; não aceita rollback.

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Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.