Interlúdio I - O Hospital

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Coleção: Revolução Anamórfica
🔄 Status: Em progresso

O sistema caiu às 02:17.

Às 02:26, ninguém no hospital ainda sabia.

A enfermeira tentou registrar o pedido de reposição de sedativo como fazia todas as madrugadas. O fornecedor operava com confirmação automática; sem validação, sem entrega.

Erro.

Atualizou.

Erro.

O médico do plantão não estava pensando em economia. Estava pensando em um pulmão pequeno demais para falhar tantas vezes na mesma noite. O respirador antigo já fazia ruído irregular havia semanas; a peça nova estava prevista para aquela manhã.

O pedido não foi confirmado.

Sem confirmação, não há envio.

Às 03:41, o técnico ligou para o fornecedor.

O pagamento foi autorizado? Todas as contas estão iguais. Iguais como? Iguais.

Às 05:02, a mãe de um menino de oito anos perguntou se o equipamento novo chegaria a tempo.

A enfermeira não respondeu imediatamente.

Ela não sabia como explicar que a falha não era falta de dinheiro; era falta de prioridade.

Às 08:33, caminhões estavam parados aguardando validação central.

Às 10:12, o respirador falhou definitivamente.

O médico improvisou.

Improviso é limite com outro nome.

Às 11:03, o coração entrou em arritmia.

Às 11:17, entrou em silêncio.

A mãe não gritou.

Ela apenas repetiu:

Vocês disseram que estava pago.

Ninguém respondeu.

Naquela manhã, o sistema discutia igualdade.

No quarto 304, discutia-se ausência.

E ausência não pode ser redistribuída.

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Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.