Interlúdio II - O Supermercado
O cartão foi aprovado.
O problema é que todos os cartões foram aprovados.
O caixa piscava confirmação verde como se celebrasse justiça. Saldo disponível; compra autorizada; transação concluída. O pai respirou aliviado. Pela primeira vez em anos, ele não precisava escolher o que deixar para trás.
Arroz; carne; leite; remédio.
O filho segurava o pacote de cereal como troféu.
Atrás deles, uma mulher passou o mesmo arroz. Mesma carne. Mesmo leite. Mesmo valor.
A tela dela também ficou verde.
O gerente começou a perceber algo estranho quando o estoque de óleo acabou em quinze minutos.
Do lado de fora, mais carrinhos entravam.
A notícia corria mais rápido que a logística.
Todos tinham saldo.
Ninguém tinha prioridade.
Às 09:12, o sistema interno alertou que a reposição não estava confirmada. Caminhões aguardavam validação de pagamento no centro de distribuição.
Pagamento aprovado não significava entrega garantida.
O pai já estava na saída quando o segurança recebeu instrução pelo rádio.
Bloqueia a porta.Ele hesitou.
Todos? Todos.O pai não entendeu.
Está pago.O segurança olhou para a tela portátil. Verde.
Está. Então?O gerente se aproximou.
O sistema precisa validar estoque físico. Pode haver duplicidade.Duplicidade de quê.
Eu paguei. Eu sei. Ele também pagou.O pai olhou para o homem ao lado. Mesmo carrinho. Mesma compra.
Os dois tinham razão.
E não podiam sair juntos.
Uma mulher começou a gritar que estava sendo roubada. Outra acusou o supermercado de fraude. Um adolescente filmava tudo.
O filho do pai apertou o cereal contra o peito.
A gente não vai levar?O gerente suava.
Ele não tinha protocolo para igualdade absoluta.
O rádio chiou novamente.
Polícia a caminho.Às 09:27, um empurrão virou discussão.
Às 09:29, discussão virou soco.
O cereal caiu no chão.
O pai tentou separar; alguém o empurrou; o carrinho virou; o leite estourou no piso; branco espalhado como algo que não devia ser simbólico, mas era.
O segurança gritava ordens que ninguém reconhecia como legítimas.
Quando a polícia chegou, não sabia o que aplicar.
Invasão.
Não.
Furto.
Não.
Estelionato.
Não.
Todos tinham saldo.
Todos tinham comprovante.
Todos estavam certos.
Às 10:04, o supermercado fechou as portas.
Do lado de fora, a multidão discutia justiça.
Do lado de dentro, o gerente calculava prejuízo.
No chão, o cereal estava amassado.
O filho perguntou de novo.
A gente não vai levar?O pai não respondeu.
Porque pela primeira vez na vida ele tinha dinheiro suficiente.
E isso não significava nada.

