Interlúdio II - O Supermercado

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Coleção: Revolução Anamórfica
🔄 Status: Em progresso

O cartão foi aprovado.

O problema é que todos os cartões foram aprovados.

O caixa piscava confirmação verde como se celebrasse justiça. Saldo disponível; compra autorizada; transação concluída. O pai respirou aliviado. Pela primeira vez em anos, ele não precisava escolher o que deixar para trás.

Arroz; carne; leite; remédio.

O filho segurava o pacote de cereal como troféu.

Atrás deles, uma mulher passou o mesmo arroz. Mesma carne. Mesmo leite. Mesmo valor.

A tela dela também ficou verde.

O gerente começou a perceber algo estranho quando o estoque de óleo acabou em quinze minutos.

Do lado de fora, mais carrinhos entravam.

A notícia corria mais rápido que a logística.

Todos tinham saldo.

Ninguém tinha prioridade.

Às 09:12, o sistema interno alertou que a reposição não estava confirmada. Caminhões aguardavam validação de pagamento no centro de distribuição.

Pagamento aprovado não significava entrega garantida.

O pai já estava na saída quando o segurança recebeu instrução pelo rádio.

Bloqueia a porta.

Ele hesitou.

Todos? Todos.

O pai não entendeu.

Está pago.

O segurança olhou para a tela portátil. Verde.

Está. Então?

O gerente se aproximou.

O sistema precisa validar estoque físico. Pode haver duplicidade.

Duplicidade de quê.

Eu paguei. Eu sei. Ele também pagou.

O pai olhou para o homem ao lado. Mesmo carrinho. Mesma compra.

Os dois tinham razão.

E não podiam sair juntos.

Uma mulher começou a gritar que estava sendo roubada. Outra acusou o supermercado de fraude. Um adolescente filmava tudo.

O filho do pai apertou o cereal contra o peito.

A gente não vai levar?

O gerente suava.

Ele não tinha protocolo para igualdade absoluta.

O rádio chiou novamente.

Polícia a caminho.

Às 09:27, um empurrão virou discussão.

Às 09:29, discussão virou soco.

O cereal caiu no chão.

O pai tentou separar; alguém o empurrou; o carrinho virou; o leite estourou no piso; branco espalhado como algo que não devia ser simbólico, mas era.

O segurança gritava ordens que ninguém reconhecia como legítimas.

Quando a polícia chegou, não sabia o que aplicar.

Invasão.

Não.

Furto.

Não.

Estelionato.

Não.

Todos tinham saldo.

Todos tinham comprovante.

Todos estavam certos.

Às 10:04, o supermercado fechou as portas.

Do lado de fora, a multidão discutia justiça.

Do lado de dentro, o gerente calculava prejuízo.

No chão, o cereal estava amassado.

O filho perguntou de novo.

A gente não vai levar?

O pai não respondeu.

Porque pela primeira vez na vida ele tinha dinheiro suficiente.

E isso não significava nada.

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Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.