ATO V - Sociedade Ouroboros
Eu me lembro do cheiro do corredor.
Desinfetante barato; café requentado; silêncio envelhecido.
Minha mãe dirigia sempre em silêncio.
As mãos firmes no volante; os olhos fixos demais na estrada; como se
olhar para mim pudesse revelar algo que ela não queria enfrentar.
Eu tinha doze anos quando comecei a entender que aquela visita não era apenas familiar.
Era política.
O prédio era discreto demais para ser prisão; confortável demais para ser liberdade.
Ele nos esperava sentado perto da janela; a mesma janela todos os dias; o mesmo jardim; as mesmas árvores; como se o mundo tivesse sido reduzido a um enquadramento fixo.
Vovô.Ele sorria como se nada estivesse errado.
Minha mãe nunca entrava completamente; ficava perto da porta; braços cruzados; corpo inclinado para trás; como quem não quer pertencer àquele espaço.
Eu perguntava histórias.
Ele nunca falava de si diretamente.
Falava do mundo; da sexta-feira silenciosa; das setenta e duas horas em que todos foram iguais; do retorno inevitável.
Eles deveriam ter eliminado o dinheiro; não redistribuído.Eu não entendia totalmente; mas sentia que aquela frase carregava algo maior do que eu podia suportar.
Na escola, aprendi outra versão.
Terrorismo digital.
Colapso global.
Mortes indiretas.
Instabilidade econômica.
A necessidade de vigilância permanente.
Aprendi que meu avô era um exemplo do que não se deve fazer quando se acredita estar certo demais.
Cheguei em casa e perguntei à minha mãe.
Ele matou pessoas.Ela não respondeu imediatamente.
Pessoas morreram.A diferença entre as duas frases me perseguiu por anos.
Continuei visitando por algum tempo; depois parei.
A adolescência trouxe vergonha; trouxe comparação; trouxe o peso de carregar um sobrenome associado a relatórios de segurança internacional.
Eu escolhi me afastar.
Não por convicção; por sobrevivência social.
Ele continuou ali; janela; jardim; monitoramento constante; visitas raras.
Ouvi dizer que passava horas olhando para a tela bloqueada do computador; não podia programar; não podia acessar redes; não podia conversar com antigos colaboradores; podia apenas lembrar.
Quando eu tinha dezessete anos, deixei de ir completamente.
Minha mãe nunca insistiu para que eu voltasse.
O silêncio dela era aprovação.
O mundo já havia retornado ao normal; mercados funcionando; desigualdade restaurada; segurança reforçada; cada transação vinculada a identidade biométrica; cada identidade vinculada a histórico completo.
Vivíamos melhor; diziam.
Vivíamos mais protegidos.
Mas algo em mim nunca ficou totalmente confortável com a palavra protegido.
Anos depois, recebi uma carta.
Papel físico; raro; quase anacrônico.
Dentro; apenas algumas linhas; e um número.
Nenhuma explicação emocional; nenhum pedido de perdão; nenhuma tentativa de reescrever o passado.
Apenas um número.
Demorei semanas para ligar.
Quando liguei; a voz dele estava mais frágil; mas não arrependida.
Você cresceu.Eu disse que tinha entendido tudo.
Eu menti.
Ele disse que a história terminava de maneira triste.
Eu perguntei como.
Voltamos a nos ajoelhar; só que agora com sensores nos joelhos.Eu ri; não por humor; por desconforto.
Ele tossiu; demorou alguns segundos para respirar corretamente.
Alice; estruturas não caem porque são injustas; caem porque deixam de ser necessárias.Eu não sabia o que responder.
Desliguei pensando que aquela era apenas mais uma frase enigmática; mais uma tentativa de justificar o injustificável.
Meses depois; ele morreu.
Não houve manchetes grandes; não houve protestos; não houve homenagens públicas.
Apenas um registro discreto; falecimento de indivíduo sob monitoramento estatal.
No funeral; poucas pessoas; quase nenhuma memória compartilhada em voz alta.
Minha mãe permaneceu rígida; firme; inabalável.
Eu senti algo que não era exatamente luto.
Era atraso.
Como se eu tivesse chegado tarde demais para compreender.
Foi só quando encontrei os arquivos; anos depois; que a forma circular da história começou a se revelar.
Ouroboros.
A serpente que morde a própria cauda.
Destruímos; reconstruímos; destruímos; reconstruímos.
Ele tinha sido julgado por tentar interromper o ciclo.
Mas talvez o ciclo não quisesse ser interrompido.
Talvez quisesse apenas ser entendido.
Naquela época; eu ainda não sabia qual seria o meu papel.
Eu era apenas a neta que parou de visitar.
A filha que escolheu estabilidade.
A jovem que acreditou que neutralidade era maturidade.
Mas neutralidade é apenas adiamento.
E adiamento é a forma mais confortável de participar de um sistema que dizemos questionar.
O mundo estava estável novamente.
E eu estava dentro dele.
Sem saber ainda que o código adormecido também me aguardava.

