Choro Mesmo

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Por que me coíbem de chorar?
Dizem que homem não chora
e nem importa se você é novo ou velho, mora?

Me dizem que quem chora não é forte
mesmo até enfrentando a magnitude da morte

Mas eu… RÁÁÁ, eu sou um cara de sorte
Choro MESMO e continuo firme,
não que você se importe.

Aprendi cedo que lágrima era falha,
defeito exposto na vitrine da virilidade.
Engole seco, diziam.
Mas engolir o mundo
sempre me deu indigestão de humanidade.

Chamam de fraqueza aquilo que é transbordo.
Como se sentir fosse um erro técnico
na engenharia do macho ideal.
Como se a alma tivesse que rodar em silêncio,
sem logs, sem rastros, sem sinal.

Chorar é admitir que algo importa.
E eu me importo demais.
Com a perda, com a ausência,
com o peso dos dias
e com o que ficou pra trás.

Se lágrima fosse covardia,
o luto seria espetáculo.
Mas não é.
É combate interno,
é terremoto sem plateia.

Eu choro porque sinto.
Sinto porque vivo.
E viver não é posar de inquebrável,
é permitir que o peito arda
sem precisar virar mármore.

Então que falem.
Que me chamem do que quiserem.
Eu continuo aqui, inteiro nas minhas rachaduras.
Choro mesmo.
E continuo forte; justamente por isso.

Solilóquios Matinais Solilóquios Matinais
Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.