O pássaro e o baseado

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Eu acordei como todos os dias (que eu acordo) e fui para a parte de cima do viaduto beber meu pouco café restante. Como consolo, posso contemplar a cidade maravilhosa que é São Paulo através dessa vista.

No fim de semana o ritual tem a adição de um baseado para finalizar o café e refletir. De repente, enquanto acendia, vi um passarinho pousar na ponte e sorri. Continuei olhando para o horizonte enquanto tragava na companhia do meu novo amiguinho, e exclamei:

Essa cidade, ainda que com suas peculiaridades, é bela.

Para minha surpresa, o pássaro virou para mim e disse com uma voz meio baixa:

O que é a beleza? Você pode me dizer?

Eu fiquei um pouco assustado, tenho que admitir, até joguei o baseado pela janela imaginando que seria culpa dele. Resolvi que era coisa da minha mente, mas mesmo assim respondi, afinal não queria parecer mal educado.

Não sei dizer exatamente, a beleza é aquilo que eu acho belo através dos meus conceitos. Por que você fez essa pergunta? O que é beleza pra você?

Nesse ponto eu estava engajando um conversa com um pássaro, pois é.

Tudo é belo, desde que seja visto pelo ângulo certo. Além disso, nada é belo, porque belo é um conceito humano e, portanto, não totalmente aplicável à realidade.

Disse ele, em um tom de sabedoria. Eu não entendi exatamente o que ele quis dizer, mas não queria parecer ignorante perto do pássaro então concordei com a cabeça e adicionei, sorrindo:

A beleza está nos olhos de quem vê, é subjetivo. É o nascer do sol, é o sorriso da minha mulher, e isso é a vida.

E, no entanto, também é o sol, é o bater de asas, é a tragédia da morte. Como é que pode estar presente em tantas coisas que são tão opostas?

Nesse momento eu passei a prestar bastante atenção no que ele falava e ele continuou explicando. Eu comecei a ficar confuso, e admitindo minha ignorância diante do pássaro, pedi por respostas que estavam incomodando minhas entranhas.

Mas então, a vida é realmente tão oposta à morte como nós acreditamos? Será que acreditar na ideia de uma unidade universal pode ser algo poético e maravilhoso? No entanto, ao fazer isso, eu sinto que nós perderíamos a beleza intrínseca de ver o contraste, a variância e diversidade que existe nesse vasto e complexo universo.

Ao passo que prontamente ele respondeu:

Humano, se você parar pra pensar, unidade e dualidade são igualmente irrelevantes em termos de beleza e portanto devem ser irrelevantes em outros lugares. Lembre-se da afirmação anterior de como conceitos humanos não são totalmente aplicáveis à realidade. Unidade e dualidade são ambos conceitos humanos e qualquer metáfora para o universo é um constructo também. No entanto, é através de constructos que podemos aprender tudo que há pra ser aprendido, e por isso estou determinado a encontrar uma maneira que seja capaz de representar compreendendo tanto a unidade quanto a separação do contraste, sua dualidade.

Foi aí que ao findar essas palavras confusas o pássaro maluco voou rumando a liberdade eu tive certeza de que jamais deveria falar com pássaros novamente. Principalmente se ele for mais esperto que eu.

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Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.