A casa antiga de mim

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Em português, dizemos “sinto falta de quem eu era”, como quem lamenta uma ausência próxima, um eco familiar do que fomos um dia. Mas a verdade é mais funda: a transição não nos rouba; ela nos desmembra. Algumas partes ficam pelo caminho, outras resistem dentro, e muitas a gente nem sabia que existiam até florescerem sob a pele nova. Há um luto mudo nisso tudo, como se cada escolha fosse também uma despedida. E talvez seja. Ninguém nos diz que crescer também é enterrar versões de si.

Deixei partes de mim em lugares que não posso voltar. Em roupas que não me servem mais, em olhares que já não me reconhecem, em amores que só sabiam amar o que eu parecia ser. Cada perda tem um nome que só eu conheço. Uma fotografia guardada, uma risada antiga, uma memória que agora me parece de outra pessoa. E ainda assim, foi minha. Tudo foi. Mas não é mais. E a dor mora aí: não no que eu perdi, mas no fato de que eu precisei perder para ser inteira.

A transição é esse rito sem altar, onde a oferenda é a própria pele, e a fé, uma esperança cansada de fingir. Às vezes me reencontro em gestos novos, em palavras que agora fazem sentido, no silêncio seguro de quem não precisa mais performar. É um recomeço lento, com cicatrizes ainda em carne viva, mas também com sorrisos que não devem nada a ninguém. Sorrisos meus. Inteiros. Presentes. Reais.

Não sou mais quem fui; e ainda assim, sou feita de tudo aquilo. O que ficou para trás não é uma vergonha, é fundação. Uma casa antiga, agora vazia, mas onde aprendi a caminhar. E embora eu não possa voltar, posso olhar de longe e agradecer. Porque hoje, enfim, ando com meus próprios pés. Mesmo que às vezes eles tremam. Mesmo que o caminho ainda assuste.

Tecendo Transições Tecendo Transições
Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.