A Dor Silenciosa de uma Esposa

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Eu amo meu marido. Eu o amo desde o dia em que nos conhecemos. Construímos uma vida juntos, um lar cheio de risadas e amor, rotinas e tradições que compunham o tecido do nosso casamento. Eu costumava adormecer sentindo seus braços ao meu redor, segura na certeza de que estávamos construindo algo que duraria para sempre. Mas o para sempre não é como eu imaginava. Ele está mudando diante de mim, e eu estou tentando segurar os pedaços que escorrem por entre meus dedos.

Ontem à noite, ele me disse que não é o homem que eu pensava que era. Ele me disse que soube recentemente, não quis aceitar e teve medo de falar. Ele me disse que quer fazer a transição, que é uma mulher. E naquele momento, senti tudo se despedaçar.

Eu queria ser forte. Queria dizer as coisas certas, segurar sua mão e dizer que a apoio, que vamos passar por isso juntas. E eu disse essas coisas. Mas dentro de mim, algo mais surgiu; medo, tristeza, confusão e uma culpa tão pesada que fez meu peito doer.

Sinto-me egoísta por estar de luto. Sinto-me egoísta pelos pensamentos que passaram pela minha cabeça enquanto ele —ela— falava. Como eu não percebi? Como pude passar anos amando alguém, compartilhando meu corpo, meus segredos, meu futuro, e não ter visto isso? E por que parece que estou perdendo tudo?

Sou uma mulher cis. Sempre imaginei minha vida com um homem como parceiro, como marido. Imaginei envelhecermos juntos, celebrarmos nossos aniversários de casamento com histórias sobre a vida que construímos. Imaginei ter mais filhos, a alegria de vê-lo —vê-la— segurando nosso bebê nos braços. Mas agora, esse futuro desapareceu, reescrito em algo que não consigo compreender completamente, algo em que não sei se consigo viver.

Sinto que estou traindo tudo em que acredito apenas por sentir essa dor. Apoio pessoas trans. Sei que isso não é uma escolha, que isso não é algo que ela está fazendo para me machucar. Ela viveu com esse fardo por tanto tempo, e eu não posso ser a pessoa que lhe diz que ela deve continuar vivendo nessa dor apenas para preservar a vida que tínhamos. Mas, ao mesmo tempo, sinto que estou desmoronando sob o peso do que isso significa para mim. O que isso significa para o nosso casamento? Para o amor que compartilhamos? Para mim, uma mulher que só se sentiu atraída por homens?

E então, a culpa volta, me atingindo como uma onda. Que tipo de pessoa sou eu se não conseguir ficar? Se não conseguir amar minha parceira através dessa transformação? O que isso diz sobre mim, que estou de luto pelo meu marido enquanto minha esposa está sentada bem na minha frente, desesperada pelo meu apoio, meu amor, minha aceitação?

Penso na vida que construímos juntas. Como explicamos isso? Como enfrentamos as perguntas, os olhares da família, o julgamento de pessoas que nunca entenderão? E eu? Se eu for embora, o que isso faz de mim? Uma covarde? Uma fracassada? Como recomeçar? Encontrarei o amor novamente? Vou querer?

Quero segurá-la, dizer que vai ficar tudo bem, que estarei aqui, mas também quero fugir. Quero gritar. Quero implorar pela minha vida antiga de volta, mesmo sabendo que essa vida foi construída sobre algo que não era real. Ou talvez fosse real, mas apenas para mim.

Não sei como seguir em frente. Não sei como separar meu luto da minha culpa, meu amor da minha tristeza. Mas sei de uma coisa: quero que ela seja feliz. Mesmo que isso signifique que eu precise deixá-la ir. Então eu fico aqui, olhando para a pessoa que já chamei de marido, a pessoa que ainda amo, e tento encontrar forças para fazer o que é certo; para nós duas. Mesmo que isso me destrua.

Tecendo Transições Tecendo Transições
Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.

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