Entre o silêncio e o espelho
Às vezes, quando o silêncio da noite pesa mais que o travesseiro, eu me pego imaginando como seria voltar atrás. Não porque eu queira. Mas porque dói demais seguir em frente. Dói perder. Dói ser deixada. Dói ser vista como um erro em vez de um renascimento.
Eu perdi pessoas. Pessoas que eu jurava que nunca iriam embora. Perdi olhares de orgulho. Perdi o “filho” que meu pai dizia amar com tanto fervor. E me pergunto, em momentos de fragilidade quase insuportável, se eu voltasse, será que ele voltaria também? Será que eu teria de novo aquele abraço sem hesitação? Será que um nome morto poderia me devolver um amor vivo?
Há dias em que viver com autenticidade parece uma batalha que nunca acaba. Uma guerra contra sorrisos falsos, contra olhares de desdém, contra o medo que escorre da pele dos outros e escorre para dentro da minha. Viver como quem sou é um ato de resistência constante. E tem vezes que me pergunto se desistir disso seria um alívio. Se abrir mão de mim por um pouco de descanso seria compreensível. Talvez até perdoável.
E no fundo desse cansaço todo mora um medo muito mais profundo: o medo de ser impossível de amar. Não amar no sentido superficial. Mas no sentido de que alguém me olhe inteira, veja minha alma, meu corpo em construção, minhas cicatrizes e meus sonhos, e ainda assim escolha ficar. Há dias em que isso parece uma fantasia tola. E nesses dias, fantasio com a ideia de voltar a caber naquele molde antigo. Não por mim. Mas para talvez, só talvez, ser amada.
A sociedade aperta. Empurra. Estica e torce até que a gente comece a duvidar da própria forma. E quando você se vê fora do molde, tão exposta, tão alvo, começa a acreditar que talvez seja mais fácil ceder. Ser “normal”. Ser o que esperam, não o que se é. É sedutor, sabe? A promessa de pertencimento, mesmo que ao custo da própria verdade, tem um gosto amargo, mas familiar.
Mas talvez o mais cruel de tudo seja o medo do arrependimento. De um dia olhar para trás e pensar: eu forcei demais, fui longe demais, perdi demais. Às vezes a ideia de voltar parece um jeito de se proteger do futuro. De não precisar encarar um espelho daqui a 20 anos e se perguntar se tudo isso valeu a pena. Mas me assusta mais ainda a ideia de um futuro seguro onde eu não seja eu.
E mesmo assim, mesmo com todas essas dores, há algo que não consigo explicar. Uma centelha. Uma chama pequena que insiste em não se apagar. Algo em mim que diz: você está no caminho certo. Mesmo que ele seja solitário, mesmo que ele seja difícil, mesmo que ele custe quase tudo. Há uma paz misteriosa que mora em ser quem se é — mesmo quando tudo do lado de fora diz que você deveria ser outra.
Porque no fim, permanecer é um gesto de amor. Amor por si mesma. Amor pela criança que um dia sonhou com liberdade. Amor pelas mulheres como eu, que vieram antes e que virão depois. Amor por uma verdade que é maior que o medo.
A detransição pode parecer uma rota de fuga. Pode até parecer uma chance de reencontro com o que se perdeu. Mas talvez o que realmente importa não seja voltar ou seguir. Talvez o que mais importe seja por que escolhemos. E eu escolho continuar. Não porque seja fácil, não porque eu não tenha dúvidas. Mas porque, mesmo com todas as perdas, essa é a única escolha que me faz sentir viva.
E ser viva, do jeito que eu sou, é tudo o que me resta. E é mais do que suficiente.




