O luto de ser substituída por mim mesma

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Às vezes, me pego olhando uma foto antiga e tentando entender onde foi que deixei de ser vista. Não digo isso com romantismo ou saudade; digo com a frieza de quem encara a própria pele como uma moldura trocada. Ela não amava a pintura, só o quadro. Só o reflexo na parede, o vulto masculino que caminhava ao lado dela e fazia sentido no espelho dos outros. Eu era um enfeite de normalidade. Um corpo aceitável. E isso bastava pra ela chamar de amor.

O problema é que eu acreditei. Acreditei que aquilo que a gente tinha era maior do que meu rosto, maior do que minha voz antes de mudar, maior do que o desconforto preso entre as pernas e os silêncios engolidos ao longo dos anos. Achei que ela me enxergava, que via a mulher encurralada nos cantos do meu olhar, pedindo pra sair. Mas não. Ela amava a prisão, não quem tentava escapar.

E o que me corrói não é só o abandono. É o que veio depois. As fotos com homens que se parecem comigo antes de mim. Mesma barba, mesmo corte de cabelo, às vezes até a mesma blusa que ela dizia adorar quando ainda era minha. Como se ela tivesse saído à caça de fantasmas, tentando reconstruir o boneco que eu queimei no fogo da verdade. Ela não chorou por mim; ela lamentou a perda do disfarce. E foi buscar outro.

Dói. Dói ver que o amor dela tinha endereço, mas não nome. Que ela amava o jeito como eu pegava na cintura, mas não minhas mãos. Que ela amava minha coragem pra defender, mas não minha fragilidade pra me despir. Que ela amava meu cheiro depois do banho, mas não a pele que sempre me pareceu errada. Ela se deitou tantas vezes comigo, mas nunca deitou comigo de verdade. Era com o homem que ela queria dormir. E quando esse homem deixou de existir, ela também se foi.

Tem dias em que eu quase peço desculpas por ter me tornado quem eu sou. Mas só quase. Porque no fundo eu sei: eu não mudei, eu apareci. A casca que ela queria ainda existe nas fotos, nas memórias filtradas do Instagram, nos corpos dos outros. Mas a alma que habitava aquilo era minha. Sempre foi. E agora, livre, ela continua aqui. Só que sozinha.

Não é fácil conviver com esse tipo de luto. Porque ninguém morre. Só desaparece do espaço do outro. A gente perde alguém que ainda respira, ainda posta stories, ainda cruza com você na rua como se fosse um espelho rachado. Ela me sorri com culpa, e eu respondo com um nó na garganta. Queria gritar, perguntar se ela reconhece o jeito como eu seguro a bolsa, se ainda se lembra das minhas piadas ruins ou do jeito como eu falava quando tinha medo. Mas tudo isso morreu junto com meu nome antigo, como se amor tivesse validade no RG.

Não quero idealizar. Eu sei que não foi fácil pra ela. Nenhuma mulher acorda e descobre que a pessoa com quem dividia a cama está em transição e sai ilesa. Eu entendo o susto, a quebra, o medo do novo. Mas o que me mata é que ela não tentou. Ela correu antes mesmo de ouvir. Fechou a porta com pressa, como quem sai de um incêndio; sem saber que eu também queimava do outro lado.

Hoje, ela posta sorrisos ao lado de outros rostos familiares. E eu sigo, tentando costurar minha existência com linha fina e mãos trêmulas. Cada passo é um fio de cabelo que cresce, uma curva no quadril, uma lágrima engolida no elevador do prédio. Eu me reconstruo em silêncio, como quem aprende a habitar um corpo pela segunda vez; dessa vez de verdade.

Mas às vezes, só às vezes, eu me pergunto se ela sente falta de mim. Não do homem. De mim. Do que eu dizia baixinho antes de dormir. Do modo como eu segurava sua mão na rua mesmo quando ela soltava. Do meu cheiro misturado com café nas manhãs de domingo. Será que ela percebe que ninguém mais vai olhar pra ela do jeito que eu olhava, porque ninguém mais vai saber de onde ela veio como eu sei?

Ou será que, no fundo, ela está feliz? Feliz por ter encontrado alguém que a faz esquecer que eu fui real. Que existi. Que a amei com tudo que havia; mesmo quando tudo em mim gritava por socorro.

O que me resta é o espelho. E a certeza de que nele, agora, eu me vejo. Mesmo que isso tenha custado perder quem não me via.

E isso, talvez, seja o preço mais alto de todos: amar alguém que só te amava enquanto você mentia sobre quem era.

Mas eu não minto mais.

E isso, por mais que doa, é a coisa mais bonita que me resta.

Tecendo Transições Tecendo Transições
Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.