Perdendo o homem que amei

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Ela se sentou na poltrona da sala, olhando para a pessoa à sua frente. Era ele, mas, ao mesmo tempo, não era. O homem que ela havia amado por tantos anos, com quem compartilhou a vida, os planos, os sonhos, estava desaparecendo diante de seus olhos. Ele não estava morrendo, mas, para ela, a sensação era parecida. Ela via o homem de quem se apaixonou lentamente se transformar em alguém que ela não reconhecia mais. E aquilo partia seu coração.

Ela tentou. Tentou entender, tentou ser forte, tentou estar ao lado dele durante essa jornada. Ele era uma boa pessoa, sempre foi. Um parceiro carinhoso, dedicado, e ela queria tanto que ele fosse feliz. Mas, a cada peça de roupa que ele escolhia, a cada passo que ele dava em direção à sua verdadeira identidade, ela sentia que estava perdendo o amor da sua vida. Sentia que o homem por quem se apaixonou estava sendo substituído por uma pessoa diferente.

Ela sabia que ele não estava fazendo isso para machucá-la. Era algo que ele precisava fazer por si mesmo. E isso era o mais difícil de aceitar. Ela o amava profundamente e queria apoiá-lo, mas cada pequena mudança — um sutiã, uma peça de lingerie, os pelos do corpo que ele insistia em remover — era um lembrete de que seu relacionamento estava mudando, de que sua própria vida estava mudando.

Ela se sentia culpada por não conseguir ser mais aberta, mais acolhedora. Tentava não deixar transparecer o choque que sentia ao vê-lo usando roupas femininas. Tentava sorrir e dizer que estava tudo bem, mas, por dentro, uma tristeza profunda crescia. Porque, embora ela tentasse aceitar, a verdade era que ela se apaixonou por um homem, e não sabia como continuar a amar essa nova versão dele.

A intimidade entre eles, algo que sempre foi natural e cheio de carinho, agora parecia distante. Ele falava em transição e hormonização, e tudo o que ela conseguia pensar era que isso acabaria com o que restava da atração física entre eles. Como ela poderia continuar sendo esposa de alguém que já não correspondia ao que ela desejava, ao que ela esperava?

O amor não tinha acabado, mas estava mudando, e a sensação de perda era devastadora. Ela queria respeitar sua jornada, mas, no fundo, também sentia que estava sofrendo a perda de uma parte de si mesma.

Tecendo Transições Tecendo Transições
Laura Esteves

Laura Esteves

Laura Esteves constrói mundos com palavras, e desmonta os que já existem. Escreve sobre o que dói, o que transforma e o que se recusa a ser esquecido. Escreve sobre amor, identidade e os sistemas que insistem em nos definir.

Acredita que a literatura é o único lugar onde a verdade não precisa pedir licença. Seus textos nascem da certeza de que toda história contada com coragem é um ato de liberdade; para quem escreve e para quem lê.

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